Portas Abertas

Dia de Portas Abertas 1999



APRESENTAÇÃO

Boas vindas

Começo por vos dar as boas vindas em nome do Conselho Científico do ITN.
Benvindos os que aceitaram o nosso convite para aqui vir hoje e benvindos os que vieram sem convite expresso, neste dia que é de portas abertas para quem deseja conhecer-nos, saber o que aqui se faz, e colocar as questões que entender.

Este dia de portas abertas insere-se num conjunto de actividades que têm lugar durante a presente semana "Semana da C&T" e em particular no Dia Nacional da Cultura Científica que hoje se celebra, em boa hora instituído pelo MCT, com o objectivo de proporcionar aos cidadãos em todo o País uma maior aproximação à Ciência e à Tecnologia. A nossa participação é feita com tanto mais gosto quanto é certo que, tradicionalmente e por iniciativa própria, esta casa sempre procurou abrir-se a quem desejava conhecê-la, em especial às escolas e à juventude que dá os primeiros passos nos caminhos da ciência e tem aqui a possibilidade de observar instalações e equipamentos únicos em Portugal. Foi assim que ao longo de décadas por aqui passaram em visita dezenas de milhares de jovens estudantes vindos de todo o País. E acreditamos que a visita terá contribuído para fazer germinar em alguns deles a pequenina semente que mais tarde haveria de conduzir a um percurso profissional nos domínios da ciência ou da técnica.

O ITN é uma instituição de I&D, de vocação pluridisciplinar, polivalente do ponto de vista da intervenção sectorial na sociedade.

Não é objectivo da apresentação que vou fazer referir exaustivamente todas as actividades desenvolvidas no laboratório nem isso seria possível no tempo de que dispomos. Apenas procurarei esboçar a traços largos o perfil desta casa, começando por um pouco de história. Daqui a pouco, na visita que se seguirá às nossas instalações mais importantes, com destaque para o reactor nuclear de investigação, procuraremos dar-vos oportunidade de compreender melhor o que são as nossas actividades e os nossos meios de trabalho.

Um pouco de história

Daqui a pouco menos de um ano e meio irá este laboratório comemorar quarenta anos sobre a inauguração, em 27 de Abril de 1961, do que então se chamou Laboratório de Física e Engenharia Nucleares. Ainda hoje se encontram aqui, activos, alguns membros da equipa de então. É com orgulho que me conto entre eles e me revejo num passado que é útil de quando em quando revisitar, para melhor preparar o futuro.

O nascimento do LFEN e da própria Junta de Energia Nuclear (1954) foram consequência do enorme impacte na opinião pública mundial, das descobertas, no domínio científico e no domínio tecnológico, associadas à compreensão das transformações nucleares e do seu enorme potencial energético. Os círculos dirigentes foram particularmente sensíveis às perspectivas de utilização da energia atómica para fins militares, e à possibilidade de produção industrial de energia, isto é, a produção em grande escala, com pequeno (em volume) consumo de combustível, designadamente, de urânio. Naturalmente, no princípio da segunda metade do século que agora termina, havia apenas um conhecimento muito parcial do que tudo isso envolvia, algo que só o tempo e os avanços da ciência permitiram clarificar. Em Portugal acrescia ainda um factor favorável à decisão de investir num programa de desenvolvimento das capacidades nacionais no domínio da ciência e da engenharia nucleares, a saber, o conhecimento (antigo) da existência de recursos uraníferos com um volume estimado considerado, na altura, bastante significativo no quadro geral dos recursos conhecidos.

Assim, parece certo, que houve claras motivações de ordem estratégica na opção que conduziu à construção do LFEN: nos planos político e económico, nomeadamente, industrial. Entretanto, não foram esquecidas, na altura, e foram mesmo apresentadas com grande ênfase, as vertentes da formação e treino de quadros científicos e técnicos, e das aplicações das radiações em medicina, na biologia, na agricultura e na indústria, que só a existência daqueles mesmos quadros poderia permitir levar por diante com sucesso.

Na altura, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, cujo Director, Manuel Rocha, esteve intimamente associado ao arranque das actividades da JEN e da construção do LFEN, era já um organismo prestigiado. As referências feitas ao prestígio do LNEC, instituido para apoiar o programa de aproveitamentos hidroeléctricos em Portugal, e os votos de que o LFEN pudesse ter idêntico sucesso, são indicativos da natureza do modelo que se tinha em mente para o novo laboratório: uma instituição onde iria realizar-se a assimilação e o desenvolvimento de tecnologias com grande impacte económico, para mais em rápida evolução, e com aplicação em diversos domínios da actividade humana. Para isso teriam ser criadas as necessárias condições, com destaque para, por um lado, a construção de uma base científica sólida apoiada na investigação conduzida em equipamentos e instalações tecnologicamente evoluídos; por outro lado, a construção de infra-estruturas ou serviços técnicos de apoio, nomeadamente, oficinas mecânicas e de electricidade, serviços técnicos de mecânica fina, electrónica, vácuo, criogenia, entre outros. Isto foi em boa medida conseguido a uma escala que não tinha entre nós precedentes. E se hoje, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico que entretanto se verificou em outras instituições ou componentes do Sistema Científico e Tecnológico nacional, o polo ou expoente de excelência, em termos de capacidades e de recursos que este laboratório continua a ser, já não tem o peso que teve no passado, não é menos verdade que conserva um certo número de características que lhe permitem desempenhar de facto ou potencialmente um papel de relevo no País, nas suas áreas de competência.

Áreas de competência

E quais são essas áreas de competência? Efectivamente e mesmo afastado o projecto inicial de introdução a médio prazo, em Portugal, da produção de energia de origem nuclear (que teria estado para se materializar na década de 70) mantem-se aberto e abre-se cada vez mais um vasto campo à acção desta instituição, no domínio igualmente vasto das aplicações das radiações e radioisótopos.

Temos assim, antes de mais, a investigação, incluindo a investigação fundamental, que não só é indispensável ao acompanhamento da evolução dos processos tecnológicos que importam às aplicações como permite às equipas locais inserirem-se internacionalmente e prestar um dos serviços à comunidade mais importantes no Portugal de hoje que é a formação científica e profissional da nossa mão-de-obra em associação naturalmente com o sistema formal de ensino e, em particular, com as universidades.

Na área da prestação directa de serviços à comunidade insere-se também o apoio aos utilizadores de equipamentos e instalações que contêm fontes de radiação. Com efeito, os chamados métodos e instrumentação nucleares, estão hoje bem implantados em diversos ramos industriais (cimentos, celulose, petroquímica, extracção de minérios, construção civil) e também nos serviços, com destaque para o sector da saúde e, naturalmente, no ensino superior e na investigação científica. A aplicação desses métodos e dessa instrumentação põe problemas técnicos de adequação aos fins que em cada caso concreto o utilizador se propõe atingir e também problemas de segurança na utilização. Em ambos os casos temos apoiado uma grande diversidade de utilizadores, designadamente, empresas, e esperamos no futuro apoiar ainda um maior número. Naturalmente, as equipas que respondem ou se formam para responder a solicitações deste tipo, têm em regra carácter pluridisciplinar: só excepcionalmente uma única disciplina ou especialidade se mostra suficiente em intervenções para a resolução de problemas práticos concretos que não sejam meramente de rotina e logo exijam uma componente de investigação. Por isso, encontramos nos nossos quadros colaboradores com formação inicial em física, química, biologia, medicina, farmácia, engenharia electrónica, informática, entre outras.

Por outro lado, há áreas que podemos classificar como de prestação indirecta de serviços à comunidade, prestação que se desenvolve ou pode desenvolver num quadro diferente que é o do contrato com o Estado. Um exemplo elucidativo é o controlo da radioactividade ambiente, com carácter regular (caso das águas dos nossos rios internacionais) ou em situações pontuais (visita de submarinos nucleares ao Tejo). Ou ainda actividades de acompanhamento no plano científico e técnico de questões de relevância internacional contempladas em protocolos ou tratados que obrigam o nosso País como os tratados sobre a proibição de ensaios nucleares. Ou ainda a aplicação de métodos nucleares ao reconhecimento e valorização de recursos naturais; à defesa do património edificado e outro património, à preservação de ecosistemas, outras tantas aplicações de grande importância onde ao longo dos anos os investigadores do ITN desenvolveram competências.

As grandes áreas em que hoje se desenvolvem actividades de I&D e de prestação de serviços neste instituto são as seguintes:

    • Ciência e tecnologia de materiais
    • Química inorgânica, radioquímica e radiofarmácia
    • Engenharia, métodos e instrumentação nucleares
    • Protecção radiológica, radioactividade ambiente e segurança nuclear,
    • Desenvolvimento e aplicação de técnicas analíticas nucleares e afins, e tecnologias de radiação

Todas elas e apesar da evolução que necessariamente o tempo trouxe consigo, têm raízes na especialização inicial, dirigida como se disse para as chamadas aplicações pacíficas da energia nuclear. Se as orientações de trabalho à partida se conformavam mais estritamente com as necessidades científicas e técnicas específicas do campo nuclear, com o passar do tempo essa orientações evoluiram, alargando-se, como aliás aconteceu em centros congéneres estrangeiros, no sentido do aproveitamento e mesmo do alargamento das competências existentes, científicas e técnicas, bem como de equipamentos e instalações.

As radiações quando penetram na matéria, funcionam como sondas muito versáteis, permitindo obter informação sobre a composição e a estrutura dos corpos, a dinâmica dos agregados de partículas que os constituem e, indirectamente, também sobre propriedades macroscópicas, como densidades ou teores de água, em particular, em amostras heterogéneas e materiais a granel (por exemplo, minérios). Temos assim a utilização das radiações como sonda para obter informações sobre os meios que atravessam.

Por outro lado, em certas condições, a radiação ao interactuar com a matéria ou com o meio, pode nele provocar alterações, modificar as suas propriedades ou a sua composição. Essas alterações podem ser nocivas ou benéficas e, naturalmente, são estas últimas que se procura desenvolver. Nomeadamente, a destruição de células doentes, em medicina, a esterilização de produtos e instrumentos, utilizados também em medicina e em cirurgia, a eliminação de parasitas em cereais ou o atraso no abrolhamento de legumes para aumentar a sua vida em armazém, ou ainda, noutro campo, o dos materiais, a fabricação de plásticos resistentes a temperaturas elevadas ou com memória de forma activada por temperatura (as mangas plásticas que encolhem quando aquecidas). Este último campo é o campo das tecnologias de radiação e também aqui é desenvolvido trabalho neste instituto.

A radiação como sonda está na origem de diversas técnicas de caracterização de materiais que desempenham um papel insubstituível em ciência e engenharia de materiais. No ITN, desenvolveu-se a aplicação de várias dessas técnicas envolvendo radiação X, radiação gama, protões, partículas alfa, e neutrões. No domínio do ambiente e da saúde, as radiações e as técnicas analíticas a elas associadas dão contribuições preciosas, nomeadamente, no campo da monitoração ambiental e, no caso da saúde, para o estudo de certas afecções ou estados patológicos decorrentes de alterações da distribuição normal de determinados elementos químicos em tecidos e órgãos do corpo humano, entre outras diversas aplicações. O domínio destas técnicas e a presença de investigadores com formação e interesses científicos diversificados tem permitido o desenvolvimento de parcerias de sucesso com outras entidades e instituições, em projectos e programas nas áreas da saúde e do ambiente.

Entretanto, como requisito de vitalidade dos grupos de investigação estes adoptam a sua problemática científica e os seus temas de trabalho próprios a partir, naturalmente, das competências que possuem ou vão criando, temas e problemática para cujo tratamento os métodos nucleares aparecem ao lado de outros como simplesmente instrumentais. Assim desenvolveu-se uma importante linha de investigação no domínio dos novos materiais com propriedades eléctricas e magnéticas não convencionais e também estudos de síntese de materiais híbridos com incorporação de polímeros em cerâmicas e vidros inorgânicos.

As actividades no domínio da química cujas origens neste laboratório radicam na necessidade sentida a quando da fundação de criar a base científica em que assentaria o tratamento dos minérios de urânio, a fabricação e o reprocessamento de combustíveis nucleares, inserem-se hoje, no essencial, numa importante linha de investigação que estuda o comportamento químico de compostos de actinídeos (com destaque para o urânio) e de lantanídeos (as terras raras, que têm importantes aplicações tecnológicas) e procede à respectiva síntese e caracterização.

Finalmente, importa sublinhar que ao longo dos anos este laboratório desenvolveu uma importante actividade no domínio da concepção, projecto e construção de instrumentos, equipamentos e sistemas, tendo iniciado há mais de 30 anos a fabricação em pequena série de módulos de electrónica nuclear para o processamento dos sinais provenientes de detectores de radiação. Também, há mais de 20 anos, iniciou o desenvolvimento e fabricação de instrumentação nuclear para monitoração e controlo de processos na indústria. A apoiar esta actividade surge nos últimos anos graças ao desenvolvimento de capacidades na área da informática, a modelação e simulação de sistemas físicos, nomeadamente de campos de radiação no interior de meios materiais que permite uma espécie de experimentação virtual a qual, em certos casos, permite ensaiar o comportamento de dispositivos antes mesmo de serem construídos.

Como referi, a visita e o contacto com os nossos investigadores e técnicos permitirá, de acordo com os interesses de cada um, obter mais informação sobre este vasto leque de actividades, a forma como se desenvolvem e as perspectivas oferecidas, de parceria multiforme com outras entidades e instituições.

Muito obrigado pela vossa atenção.

24 de Novembro de 1999